Auto- Retrato

KELLY KREIS E OS SERES PRIMIGÊNIOS

Filha de pai biólogo e mãe linguista, na infância estudou musica  com as irmãs e na adolescência estudou desenho com Flávia Fernandes, começando pelo curso de modelo vivo e se interessando pela problemática do corpo e do retrato, sendo que a repetição e o ritmo lhe proporcionaram a percepção musical da qual seu gesto e fatura lhe parecem ser portadores. Vinda de uma graduação incompleta na Arquitetura entre os anos 1991-92, e de outra em artes entre 93-94 na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), além de um bacharelado em pintura e gravura no CEART-UDESC (onde ingressou em 1995), desde meados daquela década realizou seus primeiros desenhos com traços mais pessoais e formas mais espontâneas.

No começo dos anos 2000 seus desenhos permitiram reconhecer um caráter mais emocional e psicológico, afirmados como uma espécie de catarse psíquica, povoando um mundo indiviso entre as estranhas figurações vegetais com seus brotos e acúleos, além de seres protozoários em cujas formas perturbadoras comparecem ocelos (falsos olhos), pelos, visceras e tentáculos. Na maior parte deles, não existe distinção entre dentro e fora e tudo se passa numa superfície destituída de profundidade. Mais recentemente, inúmeros de seus desenhos foram plotados, tornando-se múltiplos, desdobramento de seu interesse pela gravura, particularmente a xilogravura.

Merece destaque o caráter ornamental, dotado de uma intensidade imagética espontânea e subjetiva, onde é possível reconhecer a minúcia de uma fatura que demanda cerca de doze horas para cada trabalho. Em 2015, feitos em papel A3, estes Seres Primigênios feitos em nanquim ganharam acabamento com canetas coloridas, como se buscando cruzar o desenho e a pintura.

Após cursar licenciatura em artes visuais no CEART-UDESC entre 2007, passou a lecionar desenho em seu ateliê e a participar de exposições coletivas e individuais.

Alterando a ordem mimética, suas linhas, fertilizadas pela imaginação, situam-se entre o emaranhado e o intencional, o regramento e a desobediência, o que pode ser reconhecido na vasta série  por dezenas de desenhos de meninas-bonecas, híbridos de beldades-monstras, feitas em 2011 e 2015. Em seus poemas, feitos entre 2007 e 2016, as palavras parecem seguir desenhando aqueles retratos, reenviando a um jogo de espelhamento que, ratificando uma prática fundadora de visibilidades, empenha-se em borrar as divisas entre dizer e ver.

Texto Curatorial de ROSANGELA MIRANDA CHEREM – Jan. 2016

 

 

Kelly Kreis (artigo do Livro “Pequenas Anotações sobre Pintura” de José Maria Dias da Cruz

 

Há uma constância na obra de Kelly: as texturas e a invenção plástica. Ao percebermos as texturas evidenciam-se os valores hápticos. Assim como nas maçãs de Cézanne, essas texturas ganham outra realidade. Como dis Rilke, são maçãs não comestíveis.

Dito isso creio que posso afirmar que os desenhos e quadros de Kelly, graças a sua enorme capacidade de invenção, tanto de relações cromáticas como de texturas, são muito mais que desenhos ou pinturas. São pinturas e desenhos que uma vez realizados, passam a ocupar o espaço imediato, este percebido no espaço plástico, e esses percebidos descolados da superfície do suporte graças aos rompimentos de tons e ao cinza sempiterno. Têm, portanto, mais de duas e menos de três dimensões. Percebemos os valores hápticos. No caso da pintura  (ver adiante) o cinza sempiterno se manifesta. Assim esses desenhos e pinturas são verdadeiros em outro nível de percepção. São fatos pictóricos ricos em invenção plástica e presença. São desenhos verdadeiros externos de desenhos internos ou pinturas externas verdadeiras de pinturas internas.

 

 

Nesse desenho acima, um quadrado interno tensinona seu centro e, consequentemente, enfraquece as bordas ou a estrutura subjacente do suporte. Com isto as linhas de contorno do quadrado interno deixam de ser euclidianas para serem vincianas. Nesse trabalho de Kellyy um cinza sempiterno se manifesta e junto com o serpenteamento as texturas são dinamizadas.

 

 

Nesse quadro acima temos vários contrastes. Do tratamento do tomate e das bananas, mais realista, representando quase uma tridimensionalidade,  contra as jarras, panejamento e flores, mais moduladas. Esses conjuntos, por sua vez, se contrastam com o fundo, diversas áreas padronizadas, ou seja, superfícies tratadas da mesma forma em todas suas extensões, mas que criam certas texturas. A manifestação do cinza sempiterno, assim como no desenho acima referido, cria uma lógica bastante complexa. Permite uma convivência dinâmica de elementos heterogêneos.

Em seu texto O olho e o espírito, Merleua-Ponty, referindos-se ao interesse de Cézanne pela profundidade, diz que esta não é tridimensional. Nesse quadro de Kelly os objetos representados não nos levam a uma percepção tridimensional, não mostram um relevo absoluto. É o espaço plástico, à frente do quadro, que cria essa profundidade. E esse espaço plástico é maior que a superfície do suporte.

Autor: José Maria Dias da Cruz – 2019

 

 

CURRICULUM VITAE

FORMAÇÃO:

1991-1992 Primeiro e segundo ano do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

1993 Primeiro ano do Curso Bacharelado em Pintura na Escola de Música e Belas Artes do      Paraná.

1995-1996 Cinco fases do curso Bacharelado em Pintura e Gravura da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

1999 – 2001 Aulas de Xilogravura na Sala de Gravura do Centro Integrado de Cultura (CIC) em Florianópolis/SC

2007 – 2012 Graduação em Artes Plásticas (Hab. Licenciatura) pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

EXPOSIÇÕES REALIZADAS

2000 Exposição Individual “Faces” no Espaço Oficinas (CIC) em Florianópolis/SC.

2001 Exposição Coletiva “Arte da Gravura em Santa Catarina”, interina pelo Estado de Santa Catarina. Curadoria Jayro Smidth.

2009 Exposição Coletiva “Desenho de Monstros” na Travessa Ratclif em Florianópolis/SC

2011 Exposição “Intervenções” no Atelier Árvore da Felicidade em Florianópolis/SC. Curadoria Kelly Kreis e Leandro Serpa.

2012 – 2016  Exposição Coletiva “Gravura Contemporânea: Vestígios Singulares” do SESC/SC, itinerante pelo Estado de Santa Catarina. Curadoria: Sandra Favero.

2012 Menção Honrosa na III Competitiva Nacional de Ilustração (UNOPAR) em Londrina/PR

2013 Exposição Coletiva “Passagem” do grupo Arte&Afins no Expaço Expositivo Terminal Rodoviário Rita Maria em Florianópolis/SC

2013 Exposição Coletiva “Além do 3×4” no Museu Imagem e do Som no Centro Integrado de Cultura (MIS/CIC) em Florianópolis/SC

2013 Exposição Coletiva “Cenas Urbanas” no Hall do Centro Integrado de Cultura e Estacionamento do CIC em Florianópolis/SC.

2014 Exposição Coletiva “Que Desfaça o Curso de Qualquer Coisa” no Museu da Escola Catarinense (MESC/UDESC) como parte da Maratona Cultural em Florianópolis/SC. Curadoria: Juliana Crispe e Augusto Benetti.

2014 Exposição Coletiva “Diálogos Expostos” Abertura do Espaço 2, na Fundação Cultural Badesc em Florianópolis/SC

2014 Exposição Individual “Desenho-Pintura (Linhas-Pensamento)  na Sala Alberto Luz no Museu de Arte de Blumenau/SC

2015 Exposição Coletiva “Lote 7” na III Mostra de Arte Contemporânea na Fundação Museu Hassis em Florianópolis/SC. Curadoria Denilson Antonio.

2015 Exposição Individual “Desenho-Pintura (Linhas-Pensamento) no Coletivo de Arte NaCAsa em Florianópolis/SC

2015  Exposição Coletiva “Desenho de Monstros” na Fundação Cultural Badesc em Florianópolis/SC. Curadoria: Adriana Santos

2015   Exposição no Concurso Nacional de Artes Plásticas e Fotografia – São Bruno Filisberti – II CONARTE em Poços de Caldas/MG

2015  Exposição Coletiva de Xilogravuras “Cenas Urbanas 2” no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC) em Florianópolis/SC. Curadoria: Carlos Roberto Nascimento de Oliveira (Bebeto)

2016 “Histórias de Menina” Individual na Sala Elke Hering, no Museu de Arte de Blumenau

2016 Exposição “Inantecipáveis” (Exposição feita com pessoas em situação vulnerável, internadas na Comunidade Terapêutica Liberdade – Projeto Social- Coletivo Semente) Trabalhou em oficinas de arte, na organização do Coletivo Semente e na curadoria da exposição.

2016  Exposição “Tangências” Exposição Coletiva dos artistas do Coletivo Semente na Escola do Legislativo de Santa Catarina, em Florianópolis – SC

2018 – Exposição “Entre rendas” exposição coletiva dos artistas do Coletivo Semente no Espaço Cultural Armazém  – Coletivo Elza 

2018-2019 – Exposição “Histórias de Menina” na Galeria ThinkArt Tatoo (Florianópolis -SC – Brasil)

 

ARTIGOS PUBLICADOS SOBRE A OBRA DA ARTISTA 

  1. Revista Estúdio

Faculdade de Belas Artes da Universidade de LIsboa

Volume 3, número 6, julho-dezembro 2012 1.63

Título: A poética do livro de artista: Memórias da Menina Gravada, de Kelly Taglieber

Autora:  Anita Prado Koneski

2. ARTISTAS CONTEMPORÂNEAS na teoria e história da arte

Organização: Rosangela Cherem e Sandra MAkowiecky

Florianópolis AAESC 2016

 

(a)O ARQUIVO NA POÉTICA DE KELLY KREIS

Autora: Vanessa  Costa da Rosa pag. 143

 

(b) O FLORESCIMENTO NO ABISMO EM SARA RAMOS E KELLY KREIS

Autora: Lúcio Bahia pag. 195

 

(c) O OLHO QUE CHAMA E A MÃO QUE TRAÇA EM ROBERTA TASSINARI E KELLY KREIS

Autor: Danilo da Silva Caligari  pag. 233